Privilégios

 

Se a gente parar para analisar friamente eu sou uma pessoa privilegiada, sou um homem, branco, hétero, cisgênero e de uma família tradicional classe média. Eu não passei fome, sempre tive um teto sobre minha cabeça, estudei em escola particular (e no meu mar de privilégios nem percebia que estudar no SESI era considerado estudar em uma escolar particular), tive a oportunidade de não precisar trabalhar até meus 18 anos e pude cursar uma faculdade. Porém, nem por isso a vida foi fácil, eu tive um pai ausente, um pai que acreditava que estaria sendo um bom pai trabalhando e dando coisas, ele não percebia o quanto a presença dele era muito mais importante do que o dinheiro que ele trazia.


Como eu disse eu não passei fome e sempre tive um teto sobre a minha cabeça, mas tivemos nossos momentos de perrengue, onde o dinheiro estava curto e o armário acabava mais vazio, quando comecei a entender mais as coisas, percebi que sempre estávamos no limite, contado os centavos para pagar as contas, as vezes falta, ai um emprestimozinho colocava a gente de volta nos trilhos, mas ai era empréstimo em cima de empréstimo o que piorava tudo. Eu recebia até mesada, R$20 por mês, o que dava pra fazer bastante até por que eu andava apenas a pé e não bebia, então esse dinheiro rendia que era uma beleza. Quando passei na faculdade, foi dito claramente pelo meu pai, eu consigo te ajudar e pagar a mensalidade ( +/- R$300 na época), mas todo o resto é por sua conta, ou seja, junto com a felicidade, veio a correria para arrumar um emprego, consegui um, meio período, o Ônibus custava R$105 por mês, eu ganhar R$175 ou seja, passei a trabalhar e ganhar R$40 a mais do que minha mesada, o que pra mim era um rio de Dinheiro, fui demitido, quase não consegui pagar as coisas, arrumei um estagio, o valor era maior, mas era mais longe, ai além do ônibus para a faculdade eu precisava pegar 3 ônibus para o estagio, não dava, o valor da bolsa era menor, pegava dois, andava 4km ida e mais 4km volta, todo dia, acordava 4 da manhã para poder pegar os ônibus certos para chegar na hora, foram 4 anos corridos, mas me formei. A primeira pessoa com ensino superior da minha família e infelizmente duas das pessoas que mais me apoiaram não estavam vivas para ver essa conquista.

Após isso os perrengues diminuíram bastante, sabe? O TI é uma área complicada, mas ao mesmo tempo é uma área que não tem falta de espaço, não tem falta de oportunidades então a coisa caminhou. Mas por que eu contei tudo isso, pra falar que eu sofri? Tu ta esperando que eu te venda um curso, né? Mas não... O que eu quero dizer com tudo isso é, eu tive meus perrengues, eu lutei muito, meu pai lutou muito, muitas outras pessoas da minha família lutaram muito, mas, ainda assim, mesmo com a luta, mesmo com tudo, eu vivia em uma mar de privilégios. Como eu disse, eu nunca passei fome, sempre consegui ter boas noites de sono, estudei em escolas boas, umas mais do que as outras, mas todas escolas boas, que tinha estrutura e era próximas da minha casa, tive saúde, tomei todas as minhas vacinas e quando precisava podia contar com um plano de saúde (normalmente das empresas que meu pai trabalhava), arrumei emprego quando precisei, meu estagio me proporcionou o que eu precisava para me formar a hoje em dia, apesar de perrengues, eu ainda tenho tudo o que preciso.  Se isso não é privilégio, eu não sei o que é? Sabe, se a gente parar para pensar um pouquinho, se a gente tiver noção dos nossos privilégios, se a gente tiver um pouco mais de consciência de classe, as coisas podem mudar e te digo mais, esse post não está aqui pra diminuir minha história ou a sua. A luta de cada um é só dele, algumas lutas fáceis para uns são difíceis para outros e ta tudo bem, você pode e deve ter orgulho da sua luta e contar essa história, eu to fazendo isso, eu me orgulho da minha luta e de tudo o que eu conquistei, mas nunca e novamente eu reforço NUNCA se esqueça dos seus privilégios, enquanto nos lembrarmos deles, enquanto estivermos cientes de todos os privilégios que nos cercam, enquanto isso eu acredito que ainda temos salvação.

E isso também é sobre empatia, sabe? Se eu acho que andar 8km por dia para trabalhar é ruim, imagina quem anda isso todo dia pra buscar água? Se eu acho que ter uma mesada de R$20 para minhas necessidades é pouco, imagina para um pai de família com esposa e dois filhos que tem que viver com um salário mínimo. Sabe? É isso, é se colocar no lugar do amiguinho é olhar pra fora da sua bolha e entender que se ta ruim pra ti, imagina para os outros. Novamente, não é sobre não se importar com você mesmo, ter vergonha do que tem e viver um voto de pobreza doando tudo o que você tem para tentar corrigir as diferenças, não, calma... É sobre sim se orgulhar do que tu tem, do que conquistou mas ao mesmo tempo entender que não é só querer para conquistar, que nem todo mundo começa a corrida pela linha de partida, que um pouco a mais de dinheiro pode sim fazer muita diferença e acima de tudo se colocar no lugar do outro quando a história do outro chegar até você. É sobre entender o que a palavra privilégio significa e o quanto disso você tem. É entender as diferenças nas quais a gente vive e não diminuir a dor do coleguinha por que você acha que ele reclama atoa, pensa certinho em quem é essa pessoa, qual a estrutura familiar dela, a cor da pele, a identidade de gênero, a orientação sexual, sabe, tem detalhes que deveriam ser isso, detalhes, mas não são, um cara no mesmo local que você, com pais que tem as mesmas condições, que estudou nas mesmas escolas, passou na mesma faculdade, teve todas as oportunidade e privilégios que você, pode sim ser menos privilegiado por ser Gay ou Negro, entende? Se entende, tenha empatia... Entenda que todo mundo luta uma luta invisível e se não puder ajudar não atrapalhe, mas acima de tudo, saiba se posicionar. Simples assim, mas exige muito que você pense e realmente tome uma ação.

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