Orwell, Huxley ou Burgess? Qual distopia nos espera no futuro?

Esse texto foi originalmente publicado em 29/10/2018 no Quest da Vez.


Sou um fã de distopias, principalmente aquelas que se utilizam da nossa realidade para tentar prever o futuro, minhas três favoritas são 1984 de George Orwell (publicado em 1949),  Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley (publicado em 1932) e Laranja Mecânica de Anthony Burgess (publicado em 1977), as três trazem mundos com maravilhas além de seu tempo, que no entanto são um inferno para se viver, e em todas as três a gente consegue traçar paralelos com a nossa realidade, mas e agora, se tivéssemos que escolher uma das três para ser real, em qual nós realmente gostaríamos de viver?

O Grande Irmão olha por ti!

Em 1984 Orwell nos trás o "paraíso socialista", cada cidadão é vigiado 24hrs por dia por sua Teletela um dispositivo parecido com uma televisão que tanto grava as imagens quanto exibe elas, você é proibido de pensar paradoxos e esse crime, o chamado duplipensar, é punido com a morte, noticias são alteradas ao bel prazer do governo e passam a ser verdade, não acreditar ou questionar elas é punido com a morte, as palavras vão sendo substituídas com novas e menores palavras, para quem não seja mais possivel duplipensar, as pessoas mortas são "vaporizadas" e se tornam "impessoas", elas nunca existiram e pensar nelas é duplipensar e é punido com a morte. O lema do partido é "Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força!" e são gravados na mente de todos pois o Grande Irmão (sim, aquele mesmo Big Brother que virou Reality Show) está olhando por ti e o único momento de explosão permitido é durante O's Dois Minutos de Ódio, tempo em que é permitido e até mesmo recomendável que se exalte e xingue o inimigo mor do partido: Emmanuel Goldstein! Cada cidadão recebe do partido o que precisa para sobreviver e deve desempenhar sua função e ficar feliz com isso.

A sempre presente Teletela, observando a tudo e a todos.

Em Admirável Mundo Novo, Huxley nos brinda com um mundo formado por castas, em que a procriação da espécie humana é quase toda dada em laboratório, já que cada casta deve possuir certos atributos para ser útil, quanto mais alta sua casta, mais alto você é e mais imponente deve ser sua figura, com isso os embriões de castas mais baixas são tratados a base de álcool para que não cresçam e não desenvolvam muito seu cérebro. Nosso personagem principal é de uma casta mais alta mas por um acidente de laboratório nasceu menor do que devia e só isso já lhe causa muitos problemas. O Soma é uma droga obrigatória que trás felicidade para os cidadãos "todos os benefícios do alcoolismo e do cristianismo, sem efeitos colaterais", essa droga porém te impede de ter os sentimentos "corretos". Fora das cidades, das maravilhas do progresso, seres humano que vivem a vida normal dos humanos e são considerados selvagens pela sociedade, o livro inclusive retrata um desses selvagens indo conhecer a sociedade e se horrorizando com cada passo e cada atitude de todos a sua volta.


Em Laranja Mecânica, Burgess nos apresenta para uma sociedade pela visão dos jovens, apesar de termos os mesmo problemas das outras distopias, aqui os jovens, em especial nosso protagonista Little Alex, simplesmente consegue ignorar os problemas se drogando, praticando atos indescritíveis de violência e claro formando gangues e lutando "por territórios". Mas apesar disso, Laranja Mecânica é sobre perder o direito de escolha, é sobre deixar de ser você mesmo por ações externas, apesar de todos os atos de violência que Alex exibe em cada capitulo, o verdadeiro ato de violência do livro é aquele que é cometido contra ele. Além disso, os jovens desenvolveram sua própria linguagem, tão diferente e distante da linguagem normal que literalmente é necessário um dicionário para entender o que eles falam, e o livro é todo escrito assim. Se pararmos para pensar, tirando essa Ultraviolência e o leite alucinógeno, nós não estamos assim tão distantes da sociedade mostrada por Burgess, porém o Método Ludovico é o que assusta.

Little Alex

Se analisarmos friamente a nossa realidade atual, deixando de lado o cenário politico que estamos vivendo no Brasil, nós podemos traçar paralelos bem complexos com essas distopias. Hoje as noticias são fabricadas, Fake News se tornam tão reais que até parecem as noticias fabricadas pelo Ministério da Verdade em 1984 e o pior, hoje nós não temos nenhuma lei que mate a pessoa que discordar das noticias e ainda assim, se a noticia é boa pra mim, eu prefiro acreditar nela ao invés de ir buscar as fontes. Não temos a teletela, mas temos tantos dispositivos com câmeras em todos os lugares que uma simples brecha de segurança pode nos monitorar 100% do tempo, e as vezes nem ela é necessária, por que já produzimos tantos dados com nossos posts em redes sociais que O Grande Irmão já nem precisa ter esse trabalho por nós. Se juntarmos a gíria NadSat com a Novilíngua nós conseguimos chegar perto do que é nossa internet hoje em dia, com palavras sendo deformadas para ganhar novos significados, o vocabuláris sendo dia a dia diminuído e gírias surgindo e morrendo tão rápido que é até dificil acompanhar.

Alex e seus drugues saindo para praticar um pouco da boa e velha Ultraviolencia.

O Soma não existe, mas Álcool, drogas ilícitas e opioides fazem as vezes da droga de Admirável Mundo Novo e trazem a fuga da realidade que muitos necessitam, aqui no Brasil a terceira opção ainda é rara, mas nos Estados Unidos um dos maiores problemas é o vício nessa droga. Ainda não temos a divisão por castas sendo feita em laboratório, mas já temos métodos de inseminação artificial assim como Huxley previu e estamos caminhando para esse Hacking genético que num primeiro momento visa nos livrar de doenças embrionárias ou genéticas, mas que já tem sua vertente que visa escolher cor dos olhos, cabelo e até mesmo planejar a estrutura física do bebe, não é dificil imaginar que em alguns anos, nas mãos das pessoas erradas essa técnica seja usada para criar Ípsilon aos montes para servir os Alphas. Atos de violência que podem ser comparados a boa a velha ultraviolencia de Burgess acontecem todos os dias em todas as partes. Enfim, não é dificil traçar paralelos entre distopias e nosso mundo atual, e talvez estejamos pegando o pior delas, Huxley em seu Regresso ao Admirável Mundo Novo já nos mostrava como ele tinha acertado certos pontos e hoje em dia, os três autores teriam muito para conversar e ver como acertaram mesmo.

"If you don't look they will force you to!"

Enfim, não quero dar uma de Rorschach em Watchmen e ser o arauto do apocalipse, mas essas coisas te fazem pensar né? Por um lado temos tanto progresso, por outro tanto regresso, novas tecnologias trazem maravilhas e velhos preconceitos de volta. O mundo cada vez mais conectado, se isola em pequenos grupos e todo mundo acaba por achar que está ameaçado e se sente uma minoria, mesmo as vezes sendo parte da parcela mais privilegiada da população mundial. É triste ver, e chega até a dar medo, mas se essas mentes que escreve sobre isso a quase 100 anos ainda não foram ouvidas, não vai ser um mísero blogueiro do Brasil que vai né?rsrs Mas assim, se você chegou até aqui e esse texto de fez pensar, espalhe a mensagem, não como um pânico, mas como um alerta, nós podemos estar cada vez mais perto de viver em uma distopia global ou ainda pior, de nos tornamos menos humanos do que nunca. Mas se você achou que tudo isso é besteira, segue a vida, afinal, nós sempre estivemos em guerra com a Eurásia, não é mesmo? ;)

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